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Boletim
Informativo Nº 8 - Julho/Agosto - 2004
Reflexões
Sobre Mediação Familiar e Empresarial
No mundo atual, as mudanças que estão acontecendo nos nossos sistemas de organização, tais como, família e empresa, implicam em certas mudanças nos nossos desejos e no exercício dos nossos papéis.
Com a mudança de vários paradigmas, aconteceu uma maior complexidade nas relações humanas e na emergência de conflitos. Impasses que eram resolvidos de modo tradicional na esfera mais rígida das organizações, ou mesmo levados ao Judiciário, necessitam de forma diferente de tratamento, para que apareça o caráter transformador do conflito.
A Mediação é um método de condução de conflitos, sigiloso, aplicado por um terceiro imparcial e especialmente treinado, cujo objetivo é restabelecer a comunicação entre as partes que se encontram em um impasse, ajudando-as a chegar a um acordo, se for o caso.
São vários os setores onde se pode desenvolver a Mediação: Familiar, Empresarial, Escolar, Social, Hospitalar, e outros, tendo como premissa a dignidade humana e a cidadania. Neste artigo, escolhi fazer uma reflexão sobre a Mediação Familiar e Empresarial.
Segundo Justin Lévesque, exímio mediador francês, "Mediação Familiar é um processo de gestão de conflitos no qual um casal pede ou aceita a intervenção confidencial de uma terceira pessoa, objetiva e qualificada, para ajuda-los a encontrar, por eles próprios, as bases de um acordo durável e mutuamente aceito, que contribuirá para a reorganização da vida pessoal e familiar de cada um de seus membros".
Os conflitos familiares antes de serem conflitos de direito, são essencialmente afetivos, psicológicos, relacionais, antecedidos de sofrimento. Dizem respeito a casais que, além da ruptura, devem conservar, fundamentalmente, as relações de pais, em seu próprio interesse e no interesse dos filhos.
A vantagem da mediação é a de substituir a lógica ganhador-perdedor( linguagem binária) do enfrentamento judicial que radicaliza o conflito, em desenvolvimento de diálogo e de reconhecimento do outro.
A mediação Familiar,é antes de tudo, o lugar da palavra em que as partes, poderão verbalizar o conflito e assim tomar consciência de seu mecanismo e do que está em jogo. Na mediação existe a possibilidade do reconhecimento e a reabilitação do outro, um lugar de respeito mútuo reencontrado, pois ela permite o fenômeno da "conversão" dos estados de espírito, pois ao escutar as vivências e os sofrimentos do outro, a raiva pode diluir e a confiança tem a possibilidade de ser restaurada. É por isso que, mesmo quando o casal não chega a um acordo, eles testemunham que algo mudou na sua relação: uma comunicação se deu, de alguma forma, aconteceu uma alteração na relação.
Portanto, a Mediação é transformadora de conflitos e não um meio de solução, ou seja, ela proporciona a ampliação da compreensão dos conflitos, pois transforma a culpa em responsabilidade, ao invés da sentença ser delegada para o juiz. As próprias partes buscam a melhor decisão para aquela situação, com a presença do Mediador, que faz o papel de um "clínico geral", cooperando com os mediandos.
Prática bastante comum é a co-mediação, em que profissionais de diferentes áreas, como por exemplo, o advogado e o psicoterapeuta, atuam em conjunto, Este procedimento tem se mostrado eficaz no sentido de evitar a parcialidade e o estabelecimento de alianças inconscientes a que todos estamos sujeitos.
Passemos para a Mediação Empresarial, que é importante instrumento para a compreensão das relações nas empresas, para a decodificação e melhoria da comunicação, utilizando-se dos conhecimentos de várias disciplinas: Direito, Teoria Geral dos Sistemas, Teoria da Comunicação, Administração, Sociologia, Psicologia e Psicanálise.
Através deste instrumental, o mediador ajuda as pessoas a discriminar vários níveis de relacionamentos interpessoais que envolvem: necessidades, desejos, competências profissionais, questões operacionais e emocionais.
Conseqüentemente, aparece um exercício mais claro dos papéis, uma menor rigidez nos posicionamentos, maior sintonia e capacidade de adaptação.
Todas as relações têm algo de familiares, e uma parte dos conflitos nas relações de trabalho, advém de sobreposição com relações familiares e de sua re-atualização no ambiente profissional.
Quando classificamos as empresas em "não familiares", não excluímos características da estruturação da família e a forma de relação familiar que permeia o ambiente das empresas.
Quanto maior a insegurança sentida em situações novas, como é o caso das mudanças que estão ocorrendo com as fusões de grandes empresas, mais tendemos a repetir o conhecimento, muitas vezes desconsiderando a atualidade da situação. Nestas situações facilmente se sobrepõem o emocional familiar e o profissional.
Hoje temos uma complexificação das relações e ambiente propício para impasses, que formas tradicionais de compreensão e resolução de conflitos não dão conta. Com a técnica da Mediação, pode-se chegar na origem do conflito.
Por exemplo: a empresa familiar é formada por uma família, uma propriedade e uma administração. Os funcionários sustentam esta tríade. Permeando, está o mercado, a concorrência, fornecedores, governo, leis trabalhistas, parceiros. O mediador, ajuda os membros da empresa a conversar entre si, e detectar os seus conflitos.
Diferentemente de um consultor, que vai aconselhar e dar a direção, o Mediador é um terceiro imparcial, que escuta as partes e faz com que se escutem a si próprias e deixem emergir suas reais intenções e melhores soluções.
A técnica da Mediação é um instrumento útil tanto para a família como para as empresas, além de outras, pois permite o exercício da conversa, faz acontecer uma escuta ativa, ajuda a sintonizar as partes, clarifica questões, redireciona, reformula, evita a culpa e responsabiliza as partes.
Lia Regina Castaldi Sampaio
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